quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Interferência Sistema de Som

Dando mais força à cultura de rua do nosso país, o coletivo carioca Interferência Sistema de Som (ISS) é formado por músicos, DJs, designers, grafiteiros e jornalistas que difundem a cultura do dancehall e sound system.

O ISS surgiu há 3 anos a partir de um programa com o mesmo nome na Rádio Interferência (Rio de Janeiro: 91,5 FM), onde desde o início o som predominante é o reggae nas suas vertentes mais dançantes, como dancehall, raggamuffin e new roots. Como no Brasil não existem grandes referências do dancehall, programadores da rádio e DJs foram pesquisar e agitar, junto com a banda Faya Riddims, o interesse do público de reggae, colocando a voz da Jamaica para tocar nas pistas.

No último domingo foi o encerramento da temporada da festa Missa, comandada com sucesso pela Faya Riddims durante três meses no bar Clandestino, que fica em Copacabana. Nós aproveitamos pra conversar com a galera:

UAI BABYLON: Hoje, MC Lápide comentou no microfone que “o bom de ser uma banda é que dá pra pedir pra voltar o riddim” e dá pra imaginar que a liberdade é mesmo muito maior, seja brincando com o “rewind” ou aumentando a possibilidade do riddim se encontrar melhor com os improvisos do MC, não é? Com os riddims autorais, como rola essa interação com os MCs?

ISS: Na tradição jamacana os riddims (equivalente às bases do Rap) são a matéria prima para criação, onde os cantores se apropriam e as transformam, como bem entendem, cantando em cima delas. Um sound system é um evento, se podemos chamar assim, muito espontâneo. Não há repertório ou ensaio, são muitos cantores querendo participar para exibir suas habilidades, e, geralmente cantam no riddim que estiver tocando na hora. Não há nada combinado. Assim como os efeitos (delays, reverbs, etc), o rewind é um subterfúgio característico dessa cultura. Pode funcionar para reforçar o refrão de uma música (se o cantor sentiu que está empolgando ele chama o rewind) como também pode ser usado pelo cantor pra tentar encaixar uma nova letra, outra melodia, enfim, melhorar sua performance se ele estiver insatisfeito com ela. Isso foi repassado pras apresentações com bandas e sempre funcionou muito bem, mas vem desde muito tempo, do início dos sound systems jamaicanos.

Em nossas apresentações tocamos riddims autorais e clássicos. Geralmente, o cantor conhece-os já. Sempre tentamos ensaiar ao máximo com eles, para melhorar nossa apresentação, bem como desenvolver a habilidade dos cantores. Algumas vezes, no calor dos shows, algum cantor pede pra dar uma canja e cantar sem ter ensaiado previamente, o que sempre incentivamos. Às vezes sentimos que poderia ficar melhor, mas muitas vezes acontece uma sintonia, aquela coisa perfeita que acontece na música que é impossível de explicar, só estando presente. Assim que os grandes cantores são revelados, e pra gente é uma honra de estar sendo em cima de uma base que criamos!

UAI BABYLON: Faya está há três meses tocando na mesma casa e eu notei que, além do público super fiel, ainda aparece gente diferente, curiosa a respeito do som que vocês fazem. Em Minas, falando com mais propriedade sobre Uberlândia, o público é curioso e aberto pra outras linhas do reggae, mas fora do eixo RJ-SP, os shows são raros e lá não existe uma cena forte de criação. Vocês, que são de uma cidade que é vitrine pro cenário musical do Brasil, enxergam um caminho pra fortalecer o movimento nessas cidades fora da rota?

ISS: Nosso grande sonho é tocar em todo e qualquer lugar que queira nos receber. Isso acontecerá naturalmente, com o desenvolvimento da cena e de público, que infelizmente ainda está estigmatizado pelo reggae clichê que domina o cenário musical brasileiro. Estamos trabalhando pra divulgar esse estilo de reggae mais moderno (sem nunca menosprezar o que já foi feito). A música jamaicana sempre foi a vanguarda da música pop mundial e no mundo todo esse reggae mais dançante (dancehall, new roots, etc) é sucesso, não tem porque ser diferente aqui no Brasil. Existe uma cena, ainda incipiente, se formando ao redor da cultura dos sound systems aqui no Brasil. Temos muitos amigos em São Paulo, Floripa, Vitória. Muitas pessoas espalhadas que militam pelo desenvolvimento e reconhecimento dessa cultura. Pra chegar até Uberlândia e começar a ser desenvolvida localmente é questão de pouco tempo. A cada dia conhecemos novas pessoas que também estão trabalhando por esse objetivo, ou até mesmo, ávidas pra conhecer o nosso trabalho. Não creio que exista um caminho, uma fórmula para o sucesso, e sim, diferentes caminhos que levam a um mesmo objetivo. Tudo que fazemos está sempre dentro de nossas convicções e não pretendemos fazer concessões em nome de um suposto sucesso ou pela fama.

UAI BABYLON: O primeiro CD sai em 2009? Uberlândia espera estar no caminho da turnê de vocês!

ISS: Já temos algum material pronto, mas apenas pra divulgação. Temos algumas músicas esperando pra serem gravadas. Com certeza, esse primeiro CD é a prioridade de 2009. Será um disco só com riddims originais, sempre com mensagens positivas. Podem esperar músicas bem dançantes pra bombar nas pistas de dança. Mas temos outros projetos planejados também, como coletâneas e mixtapes. E claro que será um prazer ter Uberlândia e outras cidades de Minas na turnê!

O ISS constrói as próprias caixas de som, buscando autonomia e a melhor qualidade sonora nos bailes, com o melhor grave e o melhor clima. Nos vocais, já contou com participações de cantores como Nabby Clifford (Ghana), Sandro Black, Dom Negrone, Victor Bhing-I, Dada Yute (SP), Simba Amlak (Guiana), Russo e Dimak e Fael 1 (BA), Lombra, Jeru Banto, Comando Selva, Negra Rê, Cachaça Crew e outros.

Esse verdadeiro “núcleo de produção musical”, com o programa na rádio e a banda, ainda ganha reforço com o graffiti que divulga a música jamaicana na sua própria fonte: as ruas. Não são apenas pinturas pela cidade, mas também mutirões de graffiti em comunidades do Rio, como a participação do ISS no Meeting of Favela III.

Intimados a comparecer em Uberlândia, só nos resta esperar a festa ouvindo o myspace dos caras com ganja na cabeça e muita positividade!

ISS é:
Bruno Negreiros "Zé" (guitarrista e DJ)
João Teves "Nitcho" (designer, grafiteiro, DJ e baixista)
Renato Carvalho "Tona" (baterista)
Marcus dos Santos (tecladista)
João Burle "Bives" (designer, grafiteiro e DJ)
Clarissa Pivetta "Nega" (jornalista, fotógrafa e videomaker)
Madruga (designer e grafiteiro)
Ment (grafiteiro)
Kajaman (grafiteiro)


Orkut: Comunidade Interferência Sistema de Som

Fotolog: fotolog.com/interferencia_ss
 
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